segunda-feira, 7 de julho de 2014

A visibilidade é relativa





a visibilidade é relativa à densidade de valor que se agregou a uma coisa, pessoa ou com o tempo. A visibilidade se agrega aos artigos escritos e publicados, pois escrever, eu creio, é mostrar-se e dar-se a ver para a apreciação do outro. A escrita cria um passado ao qual podemos sempre recorrer ou regressar para uma acolhida de coerência ou de confronto em nossa vida.O reconhecimento do outro da qualidade de pesquisador Sênior do CNPq dá densidade a visibilidade pois indica "um destaque entre seus pares como líder e paradigma na sua área de atuação, valorizando sua produção científica e tecnológica". "representa o reconhecimento da sociedade a uma vida dedicada com sucesso à ciência". Assim, pessoas ou artefactos excludentes, não podem retirar uma visibilidade que ja foi concedida.

http://www.cnpq.br/web/guest/pesquisador-senior

sábado, 31 de maio de 2014

SOBRE A INTERDISCIPLINARIDADE


SOBRE A INTERDISCIPLINARIDADE 
 por Aldo de Albuquerque Barreto 

"A Interdisciplinaridade não é mais o que costumava ser" são palavras de Pierre Jacob em seu artigo:  "A philosopher's reflections on his interactions with a neuroscientist"no  Seminário Virtual "Repensando a interdisciplinaridade" acontecido em: http://www.interdisciplines.org/interdisciplinarity com o patrocínio do "Centre National de la Recherche Scientifique" da França.

A questão da interdisciplinaridade, é dito, floresceu dos anos 70 a 90 para atenuar a maneira rígida e independente com que cada disciplina se posicionava na Academia. A partir de 1980, porém, a interdisciplinaridade tem sido usada para introduzir, com certo autoritarismo acadêmico, as soluções mal arrumadas para os problemas centrados nas dificuldades teóricas, metodológicas e práticas de uma área. As lacunas teóricas são preenchidas com uma reflexão estrangeira, com  arcabouços prontos trazidos apressadamente de outras áreas.

Muitas vezes o modismo intelectual e acadêmico pode levar a uma prepotência homogeneizadora do pensamento em vigor, são posições fortes e de difícil questionamento. A teoria dos Sistemas e depois o Cognitivismo, cada um em sua época, são exemplos disso. Durante o reinado de cada "embasamento teórico conceitual", qualquer projeto que não tivesse sua explicação teórica ou sua metodologia centrada em seu pensamento normativo, sequer seria analisado.

Ian Hacking comenta o fato no Seminário acima citado:
"A idéia da raiz é aquela de uma disciplina onde você pode ver como a idéia se bifurca. Em uma mão, os professores religiosos e acadêmicos, os coordenadores, ou os artistas modernos que têm disciplinas criam campos do conhecimento, da compreensão e da atividade. Em minha opinião, o que importa é que diligentes pensadores e honestos ativistas respeitam as habilidades aprendidas e talentos de nascimento. Existirá sempre alguém que sabe mais do que você em seu campo ou pode fazer algo mais do que você pode. Não porque você é inexperiente no domínio, mas porque você, em determinado momento e tema, necessita a ajuda de uma outra pessoa. Eu nunca procuro a ajuda de uma pessoa 'interdisciplinary', mas somente de um 'disciplined'."

E segue: "Há hoje uma consciência crescente que os diagramas podem ter um papel fundamental na comunicação das idéias. Na Física moderna, o diagrama de Feynman é uma ferramenta indispensável do pensamento. Eu fiquei interessado nos diagramas em árvore. Neste campo há os cientistas cognitivos que discutem fortemente as hierarquias, as taxonomias. É isto uma questão interdisciplinar? Em um sentido, 'sim', e eu devo estar  consultando peritos das disciplinas que são mutuamente entrelaçadas nesse foco pretendido.  

Mas, em um sentido mais importante, a resposta é 'não': os acadêmicos altamente disciplinados ajudam sempre e individualmente o pesquisador externo em um projeto que seja fácil de explicar e de cativar a atenção.Eu respeito as perguntas levantadas por meus colegas, mas acho que vale a pena fazer uma indicação em relação às disciplinas que, embora de grande colaboração, não necessitam ser, no sentido amplo da palavra, 'interdisciplinares'."[*] 

Um querer interdisciplinar não pode simplesmente transpor teorias e conceitos emprestados de um campo ou área para formar novo conhecimento em outra área. Este transporte de idéias, métodos, do pensar em si tem que respeitar as características existentes e manifestas da área que empresta, por exemplo, a Ciência da Informação com seu objeto, a informação, considerando todas as suas configurações fenomenais, suas qualidades, características e singularidades. Não basta pegar e trazer. É preciso estabelecer um canal formal de comunicação e relações entre as duas áreas.

A interdisciplinaridade é a observância partilhada de preceitos e normas acadêmicas e não se constrói na desordem da emergência. Assim, toda uma argumentação deve ser construída para a viabilidade da transmutação de conhecimentos que precisa estar clara e convincente.  Deve estar, ainda,  detalhadamente explícito como este pensar estrangeiro se insere no mundo do outro campo e, ao se inserir, não provocar estranhamentos teóricos e conceituais. A interdisciplinaridade é via de mão dupla e só acontece no trabalho conjunto e formalizado de grupos comuns.

Um bom exemplo desse desencontro de idéias é a Ciência Cognitiva, um trabalho conjunto de neurocientistas, biólogos, cientistas da computação, engenheiros e cientistas sociais, entre outros. Um primor de interdisciplinaridade por quantidade de campos.

A Ciência Cognitiva defende que as operações mentais podem se adequar a um sistema representacional do tipo algoritmo versus máquina para modelar e expor as funções cognitivas em determinado contexto. Assim, pelas normas da ciência cognitiva, podem ser representados em um modelo computacional a memória, a cognição, o raciocínio, o conhecimento e a representação do conhecimento. 

Este modelo da Ciência Cognitiva nada tem a ver com o "cognitivismo", do qual nos fala Nick Belkin e outros. Este tem uma conotação humanista e filosófica de apropriação da informação por uma consciência subjetiva: acredita o conhecimento como fruto de um processo que envolve as cadeias do pensamento, processo complexo, ainda inexplorado, e não modelável como um centro de cálculo.

Olhar várias disciplinas instrui a criatividade e a multiplicidade é uma saudável nação da universidade e da ciência. Mas como diz o autor acima: "não necessitam, estas disciplinas, ser no sentido amplo da palavra 'interdisciplinares' só pela coexistência de interesses comuns". 

Publicado em: Sobre a Interdisciplinaridade
http://www.datagramazero.org.br/dez04/Ind_com.htm 


segunda-feira, 31 de março de 2014

O Datagramazero e o processo de comunicação cientifica no Brasil.





Pesquisa realizada pela UNESP mostra  onde são publicados os artigos com os projetos de estudo desenvolvidos pelos bolsistas de produtividade de pesquisa 1 e sênior do CNPp para a área de ciência da informação. Veja a tabela abaixo e leia o artigo completo  no Datagramazero de Abril. 



“... a Tabela 2 evidencia os 10 periódicos nucleares em que os bolsistas PQ da Ciência da Informação, categoria 1 e sênior, socializaram o conhecimento novo produzido, tomando como critério de inclusão neste rol, os periódicos que publicaram seis ou mais artigos, no período em estudo... A partir da análise da Tabela 2, destacam-se ainda os periódicos que apresentaram maior permeabilidade no conjunto de pesquisadores. Nesse sentido, observa-se que a revista DataGramaZero  é a que apresenta maior permeabilidade na medida em que 14 dos 15 pesquisadores nela publicaram.” 



FONTE: DataGramaZero - v.15  n.2  abr/2014  -Artigo 05
“Produção científica de bolsistas pesquisa em Ciência da Informação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - um estudo com artigos de periódicos”
por José Augusto Chaves Guimarães, Maria Cláudia Cabrini Gracio e Daniela Fernanda de Oliveira Matos

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O medo fundamental




A série de livros infantis "As Crônicas de Nárnia" foi escrita pelo irlandês C.S. Lewis contando as aventuras que ocorrem em uma terra fictícia denominada Nárnia. Na história o bem tenta  dar combate ao mal, animais podem falar e criaturas mitológicas estão em todo lugar.  O sociólogo Bauman falando de seu livro,  “Medo líquido” reproduz algumas das condições que achamos imperam em uma terra de escolhidos.

“Os pensadores da revolução moderna tinham duas ambições espantosas  no  projeto do Iluminismo: reorganizar a sociedade segundo os princípios da razão, e submeter a natureza ao controle humano. Os seres humanos seriam finalmente libertados dos azares da contingência e protegidos dos golpes do destino e das catástrofes. A história humana seguiria, então, pela a lógica da razão, quer dizer, seria compelida a servir à causa da integridade  e da justiça e do discernimento. Contudo,  este projeto do Iluminismo,  que  continua inconcluso,  indica a essa altura  que há boas razões para se acreditar que ele não pode ser concluído."

A luta por justiça sempre foi uma luta para libertar-se do medo;  filósofos tentam explorar as sutis distinções semânticas da palavra justiça.  O injusto  é o anormal, o fora do comum, o inesperado, o sem-razão. O que todos nos tememos  é sermos rejeitados  por injustiça ou pelo desprezo e pela exclusão.  Há também o medo, em todas as classes, de não fazer parte do pensamento homogêneo indicado pela mídia. Ou seja, o foco da injustiça  passa pela sobrevivência social e por querer manter alguma dignidade social.

Libertar-se do medo também não é coisa simples em um local de esquemas de exceção. Sofremos  em todos os níveis sociais de um medo fundamental. Por temor fundamental quer se expressar  a condição cuidadosa em que o sujeito exerce a sua participação na esfera publica. É um medo com o que falar, com quem falar e sobre o que falar ou escrever. Um receio que detém uma maior participação pública, perdoa a corrupção e induz a  conivência como forma de tranquilidade social pelo  alheamento. O atuar e o viver da nossa vida na esfera política se projetam com  cuidado e com certo receio no estar coletivamente.

Nesta configuração temerosa a sobrevivência social e funcional  não é baseada em uma escala de méritos ou competência conquistada . É alcançada nas relações de ajuntamento partidário, parentesco, pândega, e ações entre amigos. E assim são decididas as preferências para as indicações, as comissões, os comitês: decisões de uma cultura do compadrio. 

O receio constante afeta o projeto do Iluminismo. E os excluídos  vivem em constante medo de ser atingidos, também, pela: “La mano de Dios” *  analogia usada para autenticar inverdades,  validar vitórias não vencidas e afastar os descontentes com o estado das coisas.

Aldo de A Barreto
2014
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*La Mano de Dios é o nome de um gol histórico marcado por uma seleção mundial em jogo válido pelas quartas-de-final da Copa do Mundo FIFA de 1986. Ao final do jogo, questionado sobre o gol feito com a mão, o jogador assim respondeu: “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios”  







domingo, 17 de novembro de 2013

O insustentável peso da base física



A informação digital  seu volume e as novas ferramentas que trazem estão incidindo diretamente sobre o indivíduo e sua existência e sua convivência com artefatos de comunicação. Uma nova economia da publicação e leitura explica porque os documentos do futuro tenderão a ser, em sua maioria,  em formato digital. O formato eletrônico tem condições econômicas imbatíveis se comparado com o convencional impresso; no caso da nova economia os produtos digitais o custo é consideravelmente  menor  que dos produtos  impressos tradicionais com consumo  pautado por uma tradicional relação de lucro.

A escrita pós-Internet, sem mudar totalmente o código da escrita, mudou sua condição de uso. A escritura não é mais fixa em uma única base e passeia por diferentes espaços para explicar ou enriquecer o tema. Condições de leitura se modificaram e o deciframento da escrita, ainda vai  de signo a signo, mais o signo se espacializou e sua agregação exige cada vez mais uma apresentação com visualização amigável.  A leitura passa a ser uma potência do imaginário do leitor onde as palavras  explodiram em sua sensibilidade para percepção do significado.

Convivemos, cada vez mais intensamente, com formatos  abertos  e  cada vez mais se lê diretamente na tela do computador;  o  interesse na leitura digital e suas possibilidades vagueantes  é a sedução da viagem por espaços entrelaçados. Virtualizam-se as bases fixas de inscrição das narrativas  escritas,  sonoras e de imagens.    As bases de informação de  formato físico e de manuseio estão se acabando com celeridade.

Assistimos neste final de 2013 o acabamento do DVD sem muita emoção. Nos EUA a Blockbuster maior repassadora de vídeos em dvd e do natimorto bluray fecha as suas lojas por falta de demanda. As locadoras que existem entre nós enfrentam seu fim diversificando sua atividade com a venda de sorvete e chocolate. Filmes e vídeos se alugam, agora, online pela TV ou na internet.

Anteriormente a Polaroid se despediu da fotografia; a empresa fechou suas fábricas de produção do filme. A Polaroid, que se tornou sinônimo de fotografia instantânea, anunciou o fechamento de suas fábricas em Massachusetts, EUA, México e Holanda. As câmeras já haviam deixado de ser fabricadas há dois anos. A empresa não conseguiu acompanhar a tecnologia digital que mudou tecnologia da fotografia para sempre. A  impressão em papel e tinta praticamente acabou, devido a seu custo.

Os cinemas dão adeus ao já velho filme em base de celuloide. Sistemas de projeção digital facilitam a vida de distribuidores e exibidores e a qualidade  digital da projeção melhora, ainda,  as condições de recepção; o filme é transformado em arquivo digital e armazenado em um servidor, que o envia via satélite para os aparelhos dos cinemas "kinoplex". A partir daí, basta um clique na hora marcada para que o filme seja projetado sem interrupções em uma ou outra sala de exibição.

As gravadoras começam  a comercializar música em cartões digitais de leitura  com o objetivo de acabar o mercado  de suporte físico tradicional o CD. Um cartão magnético de memória é inserido no "slot"  Usb do seu aparelho de "som"e pode ter uma grade número de músicas. Não risca, não arranha, não mofa, o espaço para armazenagem é enorme e  o custo menor. Comece a se despedir ou colecionar CDs, pois ele será artigo para  os colecionadores.

A transmissão da voz e de músicas  por rádio digital foi já aprovada no Brasil. A tecnologia de rádio digital permite a compressão dos sinais de voz, abrindo o canal de rádio para a transmissão AM sem interferências e FM com som digital mp3. Além da qualidade de som, o rádio digital, permitira a transmissão de textos exibidos em um visor do aparelho.  Receptores mais modernos poderão transmitir vídeos e "clips" da música tocada. O rádio digital  permitirá a transmissão de até três programas simultâneos, na mesma frequência, para públicos diferenciados. 

São grandes as transformações desta mudança estrutural dos formatos  da informação, a maior delas, em se fazendo, já está ocorrendo e é uma completa reorganização  espacial na esfera de leitura. Os livros não acabarão nunca, mas modificarão o seu formato. A substituição da leitura de um livro  de impressão papel e tinta não será aceita culturalmente para os nascidos antes de 1980. É uma afetividade de enorme querência a um velho amigo com quem convivemos desde criança. Mas, para a geração do videogame não haverá melhor opção de leitura e entretenimento.

O livro eletrônico tem condições econômicas imbatíveis se comparado com o impresso; baixo custo de acesso,  uso imediato  e disponibilidade  no local preferencial do leitor  o que o torna, ainda,  um fator de inclusão informacional e dai de inclusão social. Qualquer política de governo que não contemple esta possibilidade não será socialmente pensada.

“Eu amo  aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque  são esses os que atravessam de um para o outro lado.”

(palavras  de Zaratustra de Nietzsche)

Aldo A Barreto




segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O valor o preço e o custo da informação





A informação é muitas vezes indicada como mercadoria* de consumo ou um bem econômico para facilitar sua inserção no mundo dos negócios, das tecnologias e, até, em disciplinas do mundo acadêmico. Talvez devido à nova economia da web  a abordagem da informação como  produto voltou ao foco de reflexão.

Porém, em termos econômicos, a informação [conteúdo] seria um bem econômico  torto, por não possuir os atributos necessários para esta caracterização, isto é: não tem uma clara unidade de medida; não é divisível e sim abundante;  não é escassa,  não se extingue com o consumo, e, sobretudo quando consumida não se transforma em propriedade do consumidor;  sua posse pelo usuário mesmo quando defendida por condições legais é de difícil manutenção.

Seu  valor  é dependente do sujeito que a necessita. A abordagem econômica descreve este valor como subjetivo e determinado pela interação entre um conteúdo em uma determinada base e um o sujeito. O valor de uma informação é relativo ao indivíduo que a deseja  por razões da utilidade de seu significado. Não terá qualquer valor esta mesma informação para outro indivíduo que não a qualifica como relevante. Assim é uma falácia pensar em agregar valor ao conteúdo de  uma informação que nada vale na escala de valores daquele indivíduo que a renega por não precisar dela. A um acervo de informação pode-se agregar custos para sua maior eficácia como uma infraestrutura de  recuperação e repasse.

O mercado de informação é atormentado pela relação:  preço, custo e valor. A mesma "mercadoria" * informação possui uma valor diferente para diferentes consumidores. Configurar um preço de equilíbrio é impossível, pois tal preço pode estar muito abaixo ou muito acima do que diferentes usuários, com diferentes necessidades, lhe atribuem e estão dispostos a pagar por ela no mercado.  Fácil seria colocar preço no objeto livro, no periódico, no jornal, no disco, mas então, estamos falando da base e não do conteúdo.

Por razões semelhantes o conteúdo de informação, também, não é um insumo ou um fator de produção; por definição (na teoria da produção) todo fator de produção (insumo) perde suas características, desaparece, no processo de produção que faz  surgir o novo produto. E isto não acontece com a informação. Por exemplo, as meadas de algodão desaparecem quando da fabricação de um casaco. Existe informação juntada em todo o processo de produção do casaco, mas ela permanece igual, após a finalização da produção do casaco.

O conteúdo de uma informação é imaterial não têm existência física é em um ativo intangível, pois está associado a não materialidade do bem. Este ativo intangível se modifica unicamente quando se transforma em conhecimento na consciência de um usuário.

Seguindo esta linha de reflexão lembramos que o conceito de valor é relativo e específico para cada indivíduo, de acordo com a sua escala de preferências, com a sua hierarquia de desejos. Um  indivíduo valoriza o conhecimento - A -  em relação ao conhecimento - B - dentro desta escala de preferências. Neste caso, o valor do conhecimento A, para cada indivíduo, vai depender:

        I. De sua preferência pelo conhecimento A em detrimento ao conhecimento B;

        II. Da sua competência cognitiva em decodificar A e B e assim tornar possível uma  comparação e uma apropriação;

        III. Do conhecimento  A  e do conhecimento  B  estarem em um código que seja simbolicamente  significante para o receptor que as avalia.

Quando no julgamento do usuário, o valor do conhecimento A é maior que o valor do conhecimento B, ele efetuou uma decisão de utilidade entre duas coisas. Portanto, o valor entre duas opções é relativo e só se efetiva com a potencialidade da absorção daquele conhecimento pelo receptor.

Todo ato de conhecimento está associado a um conteúdo simbólico e representa uma  cerimônia com ritos próprios e uma passagem simbolicamente mediada  para um receptor da informação. O valor de troca, de mercado ou valor adicionado, no mundo simbólico dos conteúdos, são medidas imponderáveis.


Aldo de A Barreto

ver também:

A gestão do conhecimento, o capital intelectual e os ativos intangíveis 
http://www.datagramazero.org.br/out12/Art_08.htm


Conteúdos imateriais simbolicamente significantes

http://www.datagramazero.org.br/abr10/Art_02.htm



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* por mercadoria estamos indicando, somente, a condição uma técnica de produção de um produto.  Não estamos, aqui, vinculando ao termo mercadoria toda a ideologia relacionada com os fatores de produção.

sábado, 6 de julho de 2013

Pequeno glossário pessoal sobre tópicos de ciência da informação




Pequeno glossário pessoal sobre  tópicos de ciência da informação 
por Aldo de Albuquerque Barreto

A Ciência da Informação tem mais de 50 anos, já é uma senhora. A sua irmã Biblioteconomia conviveu com tempos infindos. Uma área de conhecimento não pode justificar, durante uma geração inteira, "ser uma área nova", compensando assim suas indisposições existenciais.

Tem sido sempre uma dificuldade para a área de ciência de a informação formular conceitos e teorias que sejam de consenso para seu grupo de pesquisadores atuantes. Penso que é essencial não deixar de lado as questões conceituais: entre outras coisas a teoria explica a prática, mas é a aplicação pratica que coloca em um mesmo tecido sua  consistência e sentido de pertencimento a um todo coerente.

Revisito minhas crenças pessoais e conceitos e formalizo as coisas em que acredito podem serem viáveis para credibilidade de outras pessoas nessa área. Porém é preciso advertir que este é meu quadro conceitual e não um consenso nesta área.


A área  de Ciência da Informação

A Ciência da Informação se preocupa e se ocupa com os princípios teóricos e as práticas da criação, organização e distribuição da informação. Estuda os seus fluxos, como uma passagem feita por uma variedade de formas e através de uma variedade de canais, caminho que se inicia na criação da informação e vai até a sua utilização. A Ciência da Informação mostra a sua essência quando uma linguagem no pensamento de um emissor se transforma em uma linguagem de inscrição pública e colocada em uma estrutura passível de apropriação por receptores.


A Ciência da Informação e a comunicação

A Ciência da Informação nasce com o pensamento autor se transforma em uma inscrição de informação e se destina ao conhecimento na consciência do receptor. Teoricamente seus limites estão entre o pensamento gerador e a consciência receptora. Sua convivência com a área de comunicação mostra também o seu contexto de existência.

A Ciência da Informação difere da área de comunicação, pois na comunicação o receptor é, na maioria das vezes, uma instituição ou um agregado de ouvintes, uma "massa" que se deseja homogênea; trata, na maior parte das vezes da notícia,  do recado verbal ou escrito, de fato ou ideia que provocou uma ruptura no cotidiano do passar do dia. O canal, a mídia, domina e subordina todo o processo. O conteúdo da mensagem é semanticamente frágil, amplo e fragmentado. Existe nesta relação à impessoalidade entre os atores do início e do fim da cadeia de eventos. A mensagem quando colocada em uma ponta fatalmente vai sair na outra para ser assimilada ou não pelo receptor.

A Ciência da Informação caracteriza o seu gerador, nomeia o seu destino. Estuda o receptor e as suas necessidades e lhe faz um perfil. Analisa qual o canal mais adequado, para melhor entregar a informação, considerando a natureza e a qualidade das geografias semânticas do seu conteúdo. Na Ciência da Informação é o conteúdo que domina as ações de união entre gerador e receptor. Todas as intenções se orientam para essência do fenômeno de passagem que se efetiva entre o emissor e o receptor quando acontece uma transferência e subsequente apropriação de um conhecimento.


Os elementos que constituem o campo da Ciência da Informação

A Ciência da Informação não existiria sem a) um ato de disseminação quando um b) emissor envia um significado a um (c) receptor. Para se realizar de forma eficaz a informação necessita: d) contexto de referência, este contexto precisa ser acessível ao emissor e receptor e deve ser verbal ou passível de ser verbalizada.

É necessário ainda:  e) um código, total ou parcialmente comum, ao emissor e ao receptor e finalmente f) um contato, isto é, um canal físico e uma conexão psicológica entre o emissor e o receptor, que os capacite a entrarem em contato e permanecerem em uma relação produtiva. Cada um dos seis elementos determina uma relação teórica e prática dentro da  ciência da informação.

- Estoques e estruturas de informação representam toda a reunião de  estruturas de informação em determinado espaço. Estoques de informação representam, assim, um conjunto de itens de informação organizados (ou não), segundo um critério técnico de gestão  da informação e possuindo conteúdo que seja de interesse de uma comunidade de receptores. A estrutura de informação que se agrega para formar o estoque podem estar em diferentes meio  e nível de completeza quanto ao conteúdo: ser uma da referência bibliográfica ou do título  e resumo ou indicadores por palavra chaves ou  o texto completo.  A estrutura pode estar configurada em linguagem natural ou em uma metalinguagem para controle e localização. Os estoques podem ser acervados em espaço físico real ou em estarem em formato digital. Tanto a estrutura quanto o estoque são configurações estáticas no processo de gerar conhecimento.

- Cognição é o  conjunto dos processos mentais subjetivos e individualizados atuando  nas características funcionais e estruturais de uma representação de saber: neste caso um objeto, um procedimento, um fato ou uma ideias documentado.  Quando na aquisição de  conhecimento opera a partir de um estimulo perceptivo  estimulado por um documento;  A cognição compreende as atividades relacionadas como  atenção, julgamento do valor, percepção, reflexão e memória. Um enfoque cognitivista considera a mente humana como um sistema de estruturado de informação, um estoque de informação organizado.

- Assimilação da informação seria um  misto de sensibilidade e percepção e apropriação. Na assimilação o receptor aceita a informação reconhecendo-a como tal  e  esta atua para alterar o seu estoque de saber por acréscimo, por modificação ou sedimentação de saber já  estocado

- Conhecimento  é organizado em estruturas mentais por meio das quais o sujeito assimila o objeto informação. Conhecer é um ato de interpretação, uma assimilação do objeto  pelas estruturas mentais do sujeito. Estas estruturas não são pré-formatadas,  no sentido de serem programadas nos genes. As estruturas mentais são construídas pelo sujeito sensível que percebe o meio. A Produção ou geração de conhecimento é uma reconstrução das estruturas mentais do indivíduo através de sua competência cognitiva, ou seja, uma modificação em seu estoque mental de saber acumulado resultante de uma interação com uma informação.

- O lugar do conhecimento -  Quando falamos dos estoques de informação, os acervos, o quantum de informação armazenada poderíamos dizer que, este é um dos artefatos com que operam o processo de conhecimento. Estes estoques estáticos de informação não geram conhecimento. Existem como possibilidade, como potência da condição de gerar conhecimento. Para que o conhecimento opere é necessária uma transferência desta informação para a realidade dos receptores e uma conjuntura favorável de apropriação deste conteúdo. Transcende a condição de comunicação e é o destino final do fenômeno da informação: criar conhecimento modificador e inovador no indivíduo e do seu contexto.  Entendemos o conhecimento como sendo uma passagem, um fluxo de percepções  que são apropriados pela consciência e este é um processo se realiza na subjetividade do receptor. É um caminho pessoal e diferenciado para cada individuo. O lugar do conhecimento é a consciência individual.


Qual o destino final da Ciência da Informação

Creio que pode ser resumido em três simples equações:
a) K= f (I)                      (onde K é conhecimento e I é informação : isto é uma crença individual)
O conhecimento é uma função da informação;

b) D = f (K)
O desenvolvimento, do indivíduo e da sociedade, é função do conhecimento acumulado como estabelecido por elementos da teoria econômica e da própria condição humana.           (Isto é uma crença estabelecida)

Operando as equações em  a e b:

c) D = f (I) - onde D é desenvolvimento, f e função e I informação.    (isto é uma crença operacional)

O desenvolvimento é uma função da informação. A ciência da informação se relaciona diretamente ao desenvolvimento do individuo e de sua realidade.

Assim é nossa crença que o destino final, o objetivo do trabalho com a informação é promover o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade em que vive. Entendemos que progresso, de uma forma ampla, seria ir a um novo estágio de qualidade de convivência. Fazer a luz brilhar para cada ser humano através da informação como mediadora do conhecimento. Pois, "de que adianta esta luz Senhor, se ela não brilha em mim", como dizia, em suas Confissões, Santo Agostinho.


A Ciência da Informação e a interdisciplinaridade

Uma área interdisciplinar  não pode, simplesmente, transpor teorias e conceitos emprestados de áreas de conhecimento. Este transporte de ideias, métodos, do pensar em si, tem que respeitar as características existentes da área que as importa, do seu objeto, com todas as suas condições características e singularidades.

Há que respeitar, também, os estatutos acadêmicos e reconhecer clara e explicitamente á área de onde os conhecimentos foram originados criando um desejável respeito mútuo. Se for utilizar a teoria dos fractais para explicar o processo de recuperação da informação não nomear a nova explicação como sendo da área da ciência da informação se a coisa toda for um sucesso. O empréstimo não denota uma propriedade do conhecimento por agregação. A interdisciplinaridade não se constrói na indisciplina, que é o caminho rápido para a desordem de qualquer campo do conhecimento. Assim, toda uma argumentação deve ser construída para mostrar as qualidades e a viabilidade da transferência teórica ou instrumental. Deve estar explícito e explicado como este pensar e agir estrangeiro se insere no mundo da ciência da informação.


A informação e a tecnologia

No meu entender o conceito de tecnologia se refere a um conjunto de conhecimentos científicos, empíricos, intuitivos, que podem alterar a coisa, o seu processo de transformação ou de transporte e comercialização. A tecnologia, quando se refere a um produto/serviço, representa o conhecimento que permite construir ou modificar o produto, seu processo de produção ou comercialização. Ela não é o produto em si. Não é o computador, mas o conhecimento que permite construir, operar e comercializar a máquina.

Uma nova tecnologia seria, assim, um conjunto de conhecimentos, com um elevado teor de novidade, relacionado a este conhecimento. A toda tecnologia se associa uma considerável quantidade de informação. Esta informação, quando assimilada pelo indivíduo, grupo ou sociedade, gera uma apropriação que permite a adoção ou a rejeição de uma determinada técnica. Quando se estabelece esta cumplicidade de intenções entre um processo de absorção e um processo de decisão, podemos dizer que se efetivou uma inovação em determinada realidade.

As tecnologias de informação e comunicação são uma utopia de realização tecnológica para possibilitar ações de construção de um saber compartilhado. Uma tecnoutopia que permite, mas não produz conhecimento. Um processo de inovação difere da construção de uma nova tecnologia; a tecnologia é o discurso da ação, e a inovação é a aceitação ação da tecnologia pela pluralidade dos elementos de um espaço social.

Os fluxos de informação
Acredito  que os fluxos de informação se movem em dois  níveis: em um primeiro nível os fluxos internos de informação se movimentam entre os elementos de um sistema de seleção , entrada, classificação, armazenamento e recuperação da informação  que se orientam para sua organização e controle. O fluxos interno se direciona por uma premissa de razão prática com um conjunto de ações pautadas por decisões de um agir baseado em princípios. 
Em outro nível existem  fluxos externos.  No extremo da seta esquerda se realiza um fenômeno de transferência do pensamento do autor para uma base de informação cuja essência é a passagem de uma experiência, de um fato ou uma ideia, que está em uma linguagem de pensamento para um texto de informação editado.   No fluxo da seta direita a premissa se transforma na promessa, uma promessa de que a informação gerada pelo autor possa ser assimilada como conhecimento pelo receptor.




Acredito que estes fluxos indicam as possíveis dissensões entre a biblioteconomia e a ciência da informação; a ciência da informação localizada nos estudos dos fluxos externos e a biblioteconomia realizando o fluxos interno do sistema de armazenamento e recuperação da informação para conhecimento
 Aldo A Barreto



Uma primeira versão reduzida foi publicada em DataGramaZero - Revista de Informação, v.8,   n.1,   fev/2007, Colunas 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A interface que colocou o homem no ciberespaço através da tela do seu computador






   Morreu Douglas Engelbart. 
“Put crêpe bows round the white necks of the public doves”

Douglas Engelbart foi um pesquisador conhecido por ter inventado o mouse e por ser um pioneiro na interação entre humanos e computadores; sua equipe desenvolveu o hipertexto, computadores em rede e as precursoras interfaces gráficas.  Em 1945, enquanto esperava a dispensa do serviço militar em um hospital leu um artigo de uma revista que o fascinou: "As we may think" de Vannevar Bush que  discutia o futuro emprego das máquinas como complemento do intelecto humano. Este artigo ligado à sua experiência como técnico em radares moldou a forma como Engelbart veio a imaginar os computadores e a forma como estes deveriam mostrar a informação.

Em 1963 abriu o laboratório que chamou de “Augmentation Research” o primeiro ambiente integrado para processamento de ideias e tecnologias voltado para "aumentar" a capacidade intelectual. De 1968 a 1970 apresentou uma série de inovações como sistemas hipertextuais de associação dinâmica e a colaboração social em rede.  Em 1970 Engelbart revelou a interface que permitiria ao homem entrar no ciberespaço através da tela do seu computador: o mouse. A aumentação revela as possibilidades de incrementar a capacidade criadora pela possibilidade de desenvolver a capacidade para expressar emoções e sentimentos.

Com  vigor de potência a interface para a realidade do ciberespaço permite existir com a liberdade incorpórea em uma  vivência mediada por scrips: instruções criadas para dar incremento a sensação de plasticidade gráfico-visual. Uma expectativa maquinal de suscitar um desejo de prolongamento ou renovação da conexão criando um espaço que permitia uma ajuda aos sentidos que refreia um imaginário por "default" e como que apaga memórias passadas e estéticas futuras tal a força do presente na interface visual.

Douglas Engelbart participou de duas invenções fundamentais para a vivencia virtual: o mouse, que facilitou o uso da interface gráfica, e o hipertexto um invento essencial à navegação na web. O mouse tirou o usuário de uma interconexão de teclado para virtualmente colocá-lo na tela do computador Em uma entrevista, Doug fala sobre o nascimento da internet :

Quem batizou o mouse com esse nome? - Bill English costumava me perguntar isso e eu sempre dizia que um garoto do interior como eu jamais pensaria em batizar esse equipamento. O curioso é que ninguém da nossa equipe se lembra de quem teve a ideia de chamá-lo de mouse. Começamos a construir novos protótipos e usá-los o tempo todo, mas sempre imaginamos que um dia ele ganharia um nome digno.  É como inventar um carro muito interessante e todo mundo comentar sobre suas rodas. Mas essa fama também me trouxe benefícios. A Logitech, a maior fabricante de mouses, me abriga em seu escritório há 12 anos. Seria muito solitário trabalhar em casa.

- Eu tive muita sorte de conviver com as primeiras pessoas a falar sobre a arquitetura da internet. Meu computador de pesquisas foi o segundo a se conectar a rede Arpanet, como era chamada a precursora da internet. Ela foi desenvolvida com o objetivo de ser um instrumento de pesquisa coletiva. A orientação era: se você tem um programa em sua máquina que eu possa usar para calcular e eu tenho os dados, então podemos trabalhar juntos. As pessoas não tinham essa noção de ambiente colaborativo que existe hoje.

- Atualmente estou envolvido em um projeto sobre ''links implícitos'', um projeto onde cada palavra estaria ligada com sua definição no dicionário.  Estou tentando achar alguém que possa trabalhar com a evolução das ferramentas para isso e também usá-las. Espero isso há décadas.

Notas:

*Script aqui significa o conjunto de condições e de uma lógica a ser seguida para realizar e manter uma conexão que ajudará o operante na concentração do conteúdo a ser vivenciado.

Realidade aumentada:
http://tinyurl.com/mz5345

Invisible revolution : a web documentary on Doug Engelbart: 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

UMA ELEGANTE ESPERANÇA



UMA ELEGANTE ESPERANÇA¹

Aldo de Albuquerque Barreto


 [ Narrativa de quase 20 anos sobre uma historia do passado que eu trago para o presente por ter tido uma  vivência de participação operacional nas transformações da coisa;esta postagem está disponível na web desde  21/11/1998 e foi publicado em 1995 na Ci. Inf., Ibict, Brasília]


          “é preciso ser fiel ao sonho e não às circunstâncias”
                                                             (Borges)


Quase ao final de seu romance "O Nome aa Rosa" , Umberto Eco², deixa falar o abade Jorge da biblioteca medieval, local onde a trama se desenvolve:

" Mas de nosso trabalho, do trabalho de nossa ordem e em particular do trabalho deste mosteiro faz parte - aliás é a sua substância - o estudo e a custódia do saber. A custódia digo, não a busca, porque é próprio do saber, coisa divina , ser completo e definido desde o início, na perfeição do verbo que exprime a si mesmo. A custódia digo, não a busca, porque é próprio do saber, coisa humana, ter sido definido e completado no arco dos séculos que vai desde a pregação dos profetas. Não há progresso, não há revolução de períodos na história do saber, mas, no máximo continua e sublime recapitulação."

É legítimo acreditar que o dogma medieval do saber estocado, que não pode gerar conhecimento perdura até os nossos dias? Neste caso o objeto da ciência da informação e do seu estudo seria unicamente o de promover à custódia, e só a custódia, do saber armazenado,  sua organização e controle. E se assim for estas atividades de guarda e controle do estoque  se reduzem a processos técnicos, que não justificam uma reflexão em nível de pesquisa e estudos de pós-graduação.

Contudo, se o objeto da ciência da informação for entendido como indo além das restrições medievais e incluindo não só a guarda do saber acumulado, mas também, o seu direcionamento e a intenção de se criar conhecimento, então existe um espaço para refletir a percepção da informação, como fenômeno que pode modificar a realidade. É compreensível, neste caso, que grupos de indivíduos se dediquem a pesquisa e ao ensino dos atos de informação, seus estoques e o seu relacionamento com o conhecimento; a modificação dos estoques de saber, os quais não podem mais ser considerados como: "contínua e sublime recapitulação "; tornam-se crescentes, modificados e modificadores de estruturas.

A produção ou geração do conhecimento em indivíduos, grupos de indivíduos, empresas e a sociedade é o fenômeno essencial em um processo de produção e transferência da informação. Neste sentido, qualquer unidade de informação trabalhando com o gerenciamento , organização, controle e transferência da informação, possui duas funções básicas e um destino final.

A primeira função é definida como a produção de informação, que se operacionaliza com práticas bem definidas , apoiadas em um processo de transformação, que se orienta por uma racionalidade técnica , que lhe é específico; estas práticas são representadas por atividades relacionadas com a: reunião, a seleção, o processamento e o armazenamento da informação.

A produção de informação se acumula, continuamente, para formar os estoques, que são quantidades estáticas de informação armazenadas em acervos, em geral em  bibliotecas, arquivos, museus, bases de dados, redes ou de sistemas de informação. Os estoques estáticos de informação são indispensáveis ao  processo de geração de conhecimento. Mas por si só não efetivam este processo.

A produção ou geração de conhecimento no indivíduo, seu grupo ou a sociedade ocorre em com uma articulação mais ampla, com a intermediação da segunda função, que atribuímos a qualquer unidade de informação, que é a função de transferência da informação.

A assimilação da informação é a finalização de um processo de aceitação da informação que transcende o seu uso. A assimilação da informação cria conhecimento no receptor e em sua ambiência. Este é o destino final do fenômeno da informação: criar conhecimento modificador e inovador do indivíduo e seu contexto. Conhecimento que  referencie tanto o indivíduo como o contexto a um melhor estágio de desenvolvimento.

Contudo, o indivíduo  não é homogêneos, assim como é o tratamento técnico da informação , que realiza a constituição dos estoques . A realidade onde se pretende que a informação atue para gerar conhecimento é fragmentada em suas condições políticas, econômicas e culturais. Os habitantes desta realidade são multifacetados em suas competências para absorver a informação, diferenciando-se, em aspectos como: grau de instrução, nível de renda, acesso aos códigos formais de representação simbólica, acesso e confiança nos canais de transferência da informação, estoque pessoal de conhecimento acumulado e sua competência na decodificação e utilização do código linguístico comum.

Harmonizar o estoque de informação produzida e disponível na sociedade, com a sua transferência visando à assimilação, que opera o conhecimento é a intenção maior de todos aqueles que trabalham com a informação, particularmente a informação em ciência e tecnologia. Deveria ser também, uma preocupação de todos aqueles que lidam com o ensino e a pesquisa em ciência da informação.

Uma breve historia do tempo da ciência da informação
A preocupação com o ensino na área de ciência da informação, no Ibict e no Brasil começou em 1956, dois anos após a fundação do então IBBD (Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação). Neste ano foi oferecido um Curso de Especialização de Pesquisas Bibliográficas para a área de Ciências Médicas. O curso de espacialização transformou-se no CDC - Curso de Documentação Científica que, foi oferecido por cerca de 40 anos sem interrupção.

O curso de mestrado em ciência da informação do Ibict, teve seu início em 1970, refletindo a preocupação europeia e americana com a formação de recursos humanos para lidar com a excessiva produção de informação científica e tecnológica surgida no pós guerra. Foi a conscientização, no Brasil, para o necessidade de organizar e controlar a informação como uma ferramenta para o próprio desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

A estrutura do mestrado em ciência da informação do Ibict passou pôr três fases bem definidas. A primeira de 1970 a 1983, quando a maioria das disciplinas era obrigatória para os alunos e o conteúdo curricular predominantemente instrumental; o foco estava dirigido para o interior dos sistemas de armazenamento e recuperação da informação e suas práticas operacionais. 

No período de 1983 até 1992, o curso de mestrado, já como uma unidade do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, adotou uma estrutura mais flexível na obrigatoriedade de suas disciplinas. O estudante com seu orientador elaborava um programa de estudo diferenciado, de acordo com a sua necessidade e a do seu contexto informacional específico. Nesta fase o curso adotou o discurso da interdisciplinaridade.

A terceira fase, a partir de 1992 coincide com o início do Doutorado em Ciência da Informação, como uma estrutura independente dentro do Programa da ECO/UFRJ. O Doutorado modificou expectativas do corpo docente e discente em relação a todo o Programa de Pós-Graduação. Com o doutorado e após, um exercício  um ano de reavaliação do programa pelos seus docente e discentes, e pelas agências de fomento e controle do governo, o mestrado foi reduzido para 30 meses de duração, com menor número de créditos mas, sem perda de sua proposta de flexibilidade e interdisciplinaridade.

O desenvolvimento da ideia do doutorado em Ciência da Informação teve o seu início em 1986, quando foi aberta uma linha de pesquisa específica para a ciência da Informação , dentro do Doutorado em Comunicação da ECO/UFRJ. Esta linha que titulou doutores foi a semente facilitadora do doutorado independente de 1992. O doutorado em 1992 foi o primeiro no Brasil, uma ousadia que lutou contra muitos entraves, mas que possibilitou a formação de docentes para que fossem abertos outros cursos de doutorado no país.

Os vinte e dois anos (1970/1992) de experiência na especialização e no mestrado permitiram a sedimentação do novo curso de doutorado. Muitos alunos que já se graduaram no doutorado, retornaram ao mercado de trabalho e à academia e estão enriquecendo e reformatando a área. Os projetos de pesquisa dos alunos: da área de biblioteconomia, arquivos e museologia permitiu uma reflexão teórica adequada que parece indicar estar havendo uma maior e melhor compreensão e debate dos paradigmas dominantes da área de informação como um todo.

A esperança
A pós-graduação em ciência da informação existe e muitos entendem a sua importância em um mundo mais interdependente, onde a informação referência o homem a sua aventura individual e sintoniza a sua consciência a um contexto individual dentro das condições globais.

Contudo, não são poucos os que acreditam que a informação, ainda está colocada em uma ambiência medieval como no mosteiro de Umberto Eco. Ou que, os problemas de informação devem estar voltados para aplicações de curto prazo e atender sempre a temperança de um fantasmagórico mercado.

Para estes o trato com a informação se resume na extravagante alegria de supor a existência de um enorme acervo, cabendo aos seus guardiões unicamente o estudo da melhor disposição das estantes e da colorida arrumação dos seus livros³. Não conseguem entender uma reflexão sobre estas práticas. Estes, porém, estão confundindo forma e conteúdo, estrutura e fluxo, poder e complacência. Pedimos, então, para Borges ³ nos dar o final:

" Quando se anunciou que a biblioteca incluía todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante alegria. Todos se sentiram donos de um tesouro secreto e intacto. Não havia problema pessoal ou universal para o qual não existisse uma solução eloquente - num hexágono qualquer. O universo estava justificado, o universo expandia-se de súbito até a ilimitada dimensão da esperança. A biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria que os volumes se repetem na mesma desordem ... Minha solidão alegra-se com esta elegante esperança."

Não compete  a uma área de conhecimento e seus idealizadores justificar continuamente a sua importância e a sua existência e seus caminhos. Seu desenvolvimento não se vincula ao mercado, mas ao capital cultural de uma sociedade. Este reconhecimento deve ser espontâneo e meritório. Resta-nos, portanto, aguardar com uma elegante esperança.

NOTAS : 

1 - Artigo revisto e adaptado em 21/11/98. Publicado na primeira versão na Ciência da Informação, Brasília, v. 24, n. 1, p. 7-9, jan./abril 1995. Algumas palavras foram adequadas nesta narrativa atual. 

2 - ECO, Umberto - O Nome da Rosa, Nova Fronteira, 13ª edição, Rio de Janeiro, 1983 (pp. 452)


3 - BORGES, Jorge Luis - A Biblioteca de Babel, em Ficções, 5ª edição, Ed. Globo, S.P., 1989.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

as palavras e os mitos







"Escrever é retirar-se. Não para a sua própria tenda para escrever, mas para a sua própria escritura. Cair longe da linguagem, emancipa-la ou desampará-la, deixa-la caminhar sozinha e desmunida. Abandonar a palavra. Deixa-la falar sozinha o que ela só pode fazer escrevendo. Abandonar a escritura é só lá estar para lhe dar passagem, para ser elemento diáfano de sua procissão: tudo e nada. Em relação a obra o escritor é ao mesmo tempo tudo é nada." (Derrida)

Assim, também, as Lexias de Barthes são  apontadas como fragmentos do texto que caracterizam uma unidade de leitura, um corte completamente arbitrário sem qualquer responsabilidade metodológica.

O nascer dos elos de uma escrita hipertextual. A lexia é o envelope de um volume semântico, a voz do texto tutor, a linha saliente de um texto plural. O texto tutor, seja ele o primeiro ou um dos seus muitos elos,  será sempre quebrado, interrompido em total desrespeito por suas divisões naturais.

"O trabalho do texto superposto, do momento que se subtrai toda a ideologia de totalidade consiste precisamente em maltratar o texto, em cortar-lhe a palavra." (Barthes)

Tanto o cientista como o artesão da bricolagem hipertextual estão a espreita de mensagens que, para o "bricoleur" são mensagens existentes e pré-transmitidas e colecionadas como códigos que permitem enfrentar situações novas; o homem de ciência antecipa sempre uma "outra" mensagem  que se espera nova e arrancada, com técnica, de interlocutores e sua ambiência.

O mais interessante no pensamento (selvagem) dos mitemas de Lèvi-Strauss  é o abandono de toda a referência a  um centro, um sujeito, um contexto específico ou uma origem absoluta. O discurso das estruturas acêntricas dos mitos não tem um sujeito ou centro absoluto.

O mito de referência (o texto tutor) não deriva unicamente de uma posição central, mas de sua posição irregular no interior do emaranhado de fragmentos que se interconectam: " o mito e a obra musical aparecem como maestros cujo plateia são os silenciosos executantes. A música e a mitologia confrontam o homem com objetos virtuais cuja  somente sombra  é atual...."

Um conjunto de mitos pertence a sua ordem do discurso. Uma estrutura de mitemas corresponde a um conjunto informação acêntrica que forma virtualmente uma rede em um hipertexto onde a crua informação neles entrelaçada transforma-se quando reunida e cozida em conhecimento.




# partes do texto que está em http://www.dgz.org.br/out04/Art_01.htm

# imagem de http://jon-chu.tumblr.com/